A despedida ideal de Fernandão

Texto publicado por Andreas Muller em 2008.

Agora as luzes do Beira Rio estão apagadas. Na penumbra, a torcida – que lota o estádio – brinca com isqueiros e celulares e transforma as arquibancadas do Gigante num pequeno pedaço de céu à beira do Guaíba. A Popular está ensandecida e canta no volume máximo debaixo de uma nebulosa de sinalizadores, pisca-piscas e chuvas-de-prata. Sem demora, os versos da música começam a ecoar pelos dois andares do Beira Rio:

—Eeeeeuuu, nunca me esquereeeeiiii…

É emocionante. Sob o blecaute, o Gigante parece ser maior do que sempre foi. É possível sentir no ar a vibração, o clima de expectativa que, agora, abala o coração de cada um dos 50 mil colorados presentes no estádio. Alguns deles fumam em tragadas longas, soltam a fumaça como se desabafassem e permanecem ali, numa espera tensa e silenciosa. Outros gritam a música com os braços para cima, em transe, embriagados de emoção. Ao meu lado, percebo uma garota que se agarra ao braço de seu pai, como se tivesse medo desse estrondo, esse urro que preenche todos os espaços escuros do Beira Rio. De relance, percebo suas lágrimas brilhando debaixo do matiz azulado dos celulares.

— Dos dias que passeeeeeeiiiii….

Eis que se acende um holofote. O feixe de luz branca vem lá de cima da marquise da “Maior Torcida do Rio Grande” e aponta diretamente para o abrigo de acesso dos times ao gramado. Uma música alta começa a tocar a leva a torcida ao delírio. Estrategicamente, só para requintar ainda mais o clima de expectativa, o feixe de luz fica dois minutos parado, sem que nada aconteça. A torcida exige:

— Aparece! Aparece! Aparece!

Então Fernandão sai da casamata. O Beira Rio vem abaixo. A multidão berra como se comemorasse um gol do Internacional. Lá embaixo, iluminado pelo holofote, o capitão do mundo caminha sozinho e altaneiro rumo ao centro do gramado. Vai em passadas rápidas e decididas, sorri bastante e acena sem parar para a multidão, agradecendo a homenagem. Ao chegar ao centro, recebe um microfone e fica esperando. Tenta falar alguma coisa, mas simplesmente não consegue – a torcida não deixa. Fernandão aguarda quase cinco minutos até que o Gigante lhe conceda a palavra. Ele aproxima o microfone da boca, faz uma pausa estratégica e, de surpresa, puxa a multidão:

— Ôooooooooooooo, vamo vamo Inteeeeeeeeeeeeeerrrrr…

Êxtase total no Beira Rio. A voz de Fernandão se transforma na voz de 50 mil torcedores. A música é entoada como se fosse o hino de uma era. Lá está, em mil decibéis, a marca eterna de uma das fases mais brilhantes da história colorada. Todos – jovens e adultos, crianças e idosos – incorporam-se ao coro regido pelo maestro maior do Internacional. É impossível conter as lágrimas. Os pessimistas suspiram: “Nunca mais teremos ninguém igual a ele”. Os realistas rebatem: “Ele foi um grande ídolo, mas estava na hora de ele sair, não adianta, a vida continua”. E os otimistas: “Agora, começa uma nova fase no Inter. Vamos revelar novos craques e construir novos ídolos”. O único consenso é de que Fernandão, um dia, voltará.

Fernandão aproveita uma brecha da torcida e inicia um discurso emocionante. Fala tudo que nós gostaríamos de ouvir. Que o Inter foi o melhor clube pelo qual ele já passou. Que é colorado de coração e sente muito orgulho de poder ter jogado no Inter. Que a saída dele não significa o fim de nada, e sim o começo de um novo ciclo para o Inter – que será de muitas conquistas, se Deus quiser. E que, evidentemente, um dia ele vai voltar.

— Eu sou apaixonado pelo Inter. Vou voltar porque eu quero e preciso voltar. Tenho que ficar perto de tudo isso que me faz tão bem, e…

Fernandão chora e a torcida canta “Uh, terror, Fernandão é matador”.

Em seguida, entram em campo 100 crianças de uma comunidade carente da Zona Sul de Porto Alegre. Vestem roupas brancas e andam em fila. Parece que uma rede de supermercados propôs um desafio a Fernandão – o de acertar o gol com um chute desde lá do meio de campo. Se ele marcar, a rede de supermercados doará uma cesta básica e uma camiseta do Internacional a cada criança. Fernandão topa o desafio, sorrindo. Novos holofotes se acendem, mostrando o gol e metade do campo. O capitão ajeita a bola com calma e, pouco antes de bater, avisa no microfone que ele próprio fará as doações se errar. Sob aplausos efusivos, ele parte para a cobrança. A bola sobe alta, atravessa toda a metade do campo, bate na trave esquerda e estufa as redes, serelepe. A torcida comemora e as crianças dão um abraço coletivo no capitão. É piegas, sim. Mas não há quem resista às lágrimas nessa hora.

Mais tarde, as rádios indagam ao presidente Vitório Píffero:

— Presidente, você não acha um exagero fazer uma festa desse tamanho apenas para marcar a despedida de um jogador?

— Não, não acho. Fernandão é um grande ídolo, é amado por nossa torcida e merece uma homenagem à altura desse sentimento.

Os jornalistas insistem:

— Você não teme passar uma idéia errada de que o Fernandão, sozinho, é mais importante do que o Inter?

— É evidente que não. Fernandão é patrimônio do Internacional. Homenageá-lo é uma maneira de homenagear o clube como um todo, bem como suas principais conquistas.

Procurando pêlo em ovo, um repórter arremata:

— E quanto aos outros jogadores do Inter? Você não acha que eles se sentirão desprestigiados? O Inter nunca fez uma festa como essa pra nenhum deles…

Num raro momento de habilidade com as palavras, Píffero retruca:

— Ao contrário: os demais jogadores do Inter têm mais é que se sentir motivados com essa homenagem a Fernandão. Nós estamos deixando bem claro que, aqui no Inter, nós valorizamos os nossos ídolos. Aliás, quero aproveitar para deixar um recado a todos os nossos jogadores, sejam eles das categorias de base, dos juniores, do banco de reservas e até do grupo principal: dêem o máximo. Vivam o Inter tal como Fernandão viveu. Sejam colorados de coração e sigam em busca de novas conquistas. Se vocês fizerem tudo isso, vocês também serão homenageados como heróis quando se despedirem do Inter.

É assim que deveria ter sido a despedida de Fernandão do Inter.

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