Não aposentem o número nove

Se tem algo que no Brasil costuma ser largado de lado é a história. Hoje pensei nisso quando li de colorados falando sobre aposentar a camiseta nº 9 do Internacional para homenagear Fernandão. Não que Fernandão não mereça homenagens, merece, mas a história de um clube de futebol, um esporte de multidões e coletivo, é muito mais que a história de um homem. Enquanto muitos choram a perda de um ídolo esportivo eu me recordo de uma tarde de domingo no já longínquo ano de 1979.

Meu pai nos levava aos jogos no Beira-Rio somente em dias que não tinha muito público. Ele não gostava de confusão e gente demais. Então quando ele nos levava, com sua almofada para sentar no cimento ou em uma cadeira das sociais, acendia um cigarro da carteira que estava sempre no bolso superior da camisa, do lado de um isqueiro, dois botões abertos no peito como era moda na época, suiças à mostra, e pedia um uísque, quando estava frio, ou uma cerveja, no calor, enquanto a gente comia amendoim que vendiam dentro da casca, da casca mesmo, não desses de só descascar, mas de quebrar e se sujar mesmo, tomava refri ou se lambuzava com um picolé, era sempre uma tarde pra lá de especial.

A gente chegava cedo porque, saibam, antigamente tinha o jogo preliminar. E a torcida ficava ali, entre sacos de bergamotas e conversas perdidas entre desconhecidos que viravam amigos momentâneos, a fluidez do momento, conhecendo os jogadores reservas, os juniores, em algum disputado amistoso ou campeonato de categorias de base, até o jogo principal. O que hoje inventaram chamar de “match day” já existia naquele tempo. Só que os carros, no caso do meu pai quase sempre uma prosaica Beilna, em que muitas vezes a gente se atirava na “cachorreira” pra brincar e abanar para os carros de trás, estacionavam no chão batido do entorno, os vendedores ofereciam banderirolas colados em pedaços grossos de madeira e os ingressos, em papel fino e coloridos por setor eram rasgados nas catracas.

Neste dia, que não recordo qual era, e nem quero agora pesquisar, o Inter enfrentava o São Borja pelo Gauchão. Era um jogo de uma dessas fases inócuas que não levavam a lugar algum. Naquele ano, antes do tri nacional, o Inter terminaria o campeonato em um vergonhoso 3º lugar, atrás do Esportivo, sofrendo durante o caminho uma derrota humilhante para o São Paulo de Rio Grande em casa. Mas isso é outra história. Naquele dia, retorno, tinha voltado ao Inter, depois de cinco anos, Claudiomiro. Claudimoro, o autor de mais de 200 gols, o maior da era Beira-Rio, 28 anos, a carreira afundando pelo excesso de peso. Mas, mesmo assim, o grande Claudiomiro, o Bigorna, que encantara a torcida de 1967 até 1974 em mais de 400 jogos, hexa campeão gaúcho.

O jogo, favorável ao Inter, continuava em seu andar natural, o Inter jogando melhor e empilhando oportunidades e chances, eu, nos meus oito anos, como os oito anos do meu filho hoje, mais brincava que prestava atenção na partida, certamente vestido com minha camiseta vermelha nº 3 do Figueroa que eu adorava usar (se é que ela ainda servia em mim), quando o Inter frez mais um gol. Seria mais um gol normal. Eu achava que era. Devo ter vibrado como sempre vibrei quando fui ao estádio. Mas meu pai não vibrou. Eu olhei pra ele e o enxergo ainda hoje, sentado à minha esquerda, no concreto das antigas sociais, em cima de uma almofadinha de espuma de camelô com o símbolo colorado emoldurado com duas estrelas e um louro. Eu ainda enxergo as lágrimas escorrendo em seu rosto. Como toda criança, assustado, me perguntei porque ele chorava. Eu não entendia.

Meu pai chorava porque ali, na nossa frente, um jovem gordo de 28 anos, um quase ex-atleta, vibrava depois de um gol, na mesma goleira que o eternizou. O jovem Claudiomiro, 28 anos, vibrava com um de mais de seus 200 gols, eterno goleador do Beira-Rio enterrado nso escombros da FIFA. Meu pai chorava à memória de um ídolo que encerrava sua carreira muito antes do esperado. Um fenômeno. Um semideus. Um homem comum. Claudiomiro, o Bigorna. Claudiomiro, o homem que fez o primeiro gol naquela tarde de 1969 contra o Benfica de Eusébio. Claudiomiro, que lutou contra o peso, contra as agruras que todo atleta enfrentava naquela época, desde os treze anos jogando no Inter, heróis antes dos dezoito. Um símbolo de uma era ao lado de Valdomiro, outro tantas vezes vaiado e perseguido.

Meu pai chorou e não falou nada. Meu pai chorou porque sabia o que a luta de homem contra o destino. Era a luta dele mesmo vindo da colônia de Guaporé para tenra a vida em Porto Alegre. Ele respeitava e admirava os lutadores. E ali, dentro de campo, estava um homem que lutava contra o próprio, inexorável, destino. Eu apenas vi, e senti, por ele, sem entender. Hoje eu entendo. E por isso entendo que nenhum número de camiseta deve ser aposentado. Hoje eu sei que a história de um clube esportivo, ou de um povo, é um acumulado de vitórias e derrotas, e nenhuma homenagem é maior que a outra. O número vai continuar. É o número de Claudiomiro, de Fernandão, de Gerson, de tantos outros. E o número deve continuar estampado na camiseta para nos lembrarmos de todos eles. Para lembrarmos de cada um deles. Eu olho para o número 9 na camiseta vermelha e me lembro das lágrimas do meu pai. E se o 9 não estiver mais lá, dentro das quatro linhas do Beira-Rio, de que lágrimas irei lembrar?

1 Comentário

  1. Luís Borda Júnior 8 de junho de 2014 Reply

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