Lento, covarde e estúpido

“A derrota teve a grandeza purificadora das tragédias”. Luis Fernando Veríssimo definiu nesta frase a eliminação colorada para o Olímpia em 1989, semifinal da Libertadores. O escritor defendia que aquela tragédia trazia ares de grandeza à eliminação colorada à época. Que a vitória seria comédia para os risos adversários. Por que transcrevo esse trecho de Veríssimo nesse momento? Será porque penso que a eliminação no México teve alguma semelhança com aquilo? Alguma identificação? Não, definitivamente não. O sentimento é justamente o contrário. O Inter que perdeu para o Tigres de forma contundente e incontestável em Monterrey foi pura comédia. Não é o tipo de derrota que faz chorar. Faz tão somente constranger. O mazembaço teve ares muito mais trágicos e grandiosos, não tenho a menor dúvida. O jogo da noite de ontem foi caricatural. O Inter que se viu foi ridículo, patético, vergonhoso, lamentável, medroso. Foi a antítese da competitividade. Lembram-se do que escrevi terça-feira, sobre a necessidade do Colorado ser veloz, corajoso e inteligente? Pois foi justamente o oposto simétrico. Lento, covarde e estúpido. E esses predicados ainda são bastante sutis diante dos adjetivos que vêm à minha cabeça nesse momento.

Algum dia eu espero receber alguma explicação minimamente convincente para a estratégia de Diego Aguirre para o começo do jogo. Abriu mão da velocidade de Sasha por Lisandro López pelo flanco esquerdo foi algo de escandaloso e injustificável para mim, pelo menos até este momento, 1:29 da manhã de quinta-feira, dia 23 de julho de 2015. O erro estratégico é tão absurdo que colocou o Colorado numa situação surreal para a segunda etapa. Enquanto no primeiro tempo o time poderia explorar espaços cedidos pelo Tigres que logicamente partiria para cima, optou pelo peso no ataque. Não jogou nada, foi dominado e nos 45 minutos finais, quando teve a necessidade de peso ofensivo, teve de optar por Sasha, incrivelmente desperdiçado no banco. Criou-se a desesperadora situação de colocar colocar esse jogador, de beirada, velocidade e tenacidade, quando não se tinha mais espaço para a velocidade, com um Tigres administrando muito mais o placar favorável (aliás, Sasha sequer entrou como jogador de flanco, tamanho o absurdo em que Aguirre havia se metido, vale salientar). Em resumo, a estratégia adotada esteve o tempo todo desconectada do cenário que a partida oferecia, a ponto de em determinado momento Rafael Moura tornar-se esperança de salvação da lavoura. Deu pra sentir o drama?

O Inter levou três a um e deveria ter levado mais. Cinco ou seis não seriam loucura alguma. Teve pênalti contra, salvo por Alisson. Teve em sua lateral o ridículo Géferson, que Dunga fez crer lateral de seleção quando não passa de um marcador razoável- quando está em seus melhores dias- com técnica de pobreza em níveis haitianos. Alguém poderá colocar William, também de atuação terrível na outra lateral, na mesma baciada. E aí irei discordar. William pode não ser um exímio marcador. Mas é muito bom jogador, tem bola e personalidade para superar o mau momento. Não podemos, agora, jogar o bebê junto com a água suja.

Fato é que o contexto atual é de desolação, de um Brasileirão em meio de caminho e uma perspectiva de Copa do Brasil imprevisível com as vendas de jogadores que muito provavelmente começarão a acontecer em breve. Este frágil time que foi eliminado de maneira inapelável irá enfraquecer-se. Os problemas financeiros do clube me levam a sérias dúvidas sobre a capacidade de reposição à altura no mercado. Fica difícil, assim, ter maiores esperanças na sequência da temporada.

O que sobra é para todos que protagonizaram o horror do México trabalhar, e trabalhar, e trabalhar. Pedir desculpas não adianta, não aplaca o constrangimento que nós, colorados, estamos sentindo no momento. Sabe aquele filme “Faces da Morte”? Pois bem, a partida de hoje serviria perfeitamente como vídeo a ser incluído na franquia: nós, colorados, fomos implacavelmente dilacerados pelos tigres. É perna pra um lado, braço pra outro, areia manchada de sangue. Sonhamos alto, bem alto. E a queda, ah, a queda é terrível, de cara no chão, nível de videocassetada às 19:30 de domingo, encerrando de forma ao mesmo tempo melancólica, bizarra e risível uma campanha que teve momentos bonitos e memoráveis. Nesse contexto, o Brasileirão, outrora baranguinha desprezada, agora é uma Scarlet Johansson partindo num navio e mostrando o dedo do meio.

Restou apenas lamber as feridas, tentar estancar a hemorragia, e colocar a cabeça no lugar. É vida que segue. Quero, pelo menos por ora, esquecer esse vexame constrangedor, ouvir música, assistir a algum seriado, fazer qualquer coisa que me leve para bem longe das agruras de Monterrey. Não será nada fácil. Ainda bem que existe o Netflix…

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