Meia década do Bi da América

Lá se vão cinco anos daquela redentora noite de 18 de agosto de 2010. O Inter já vivia um momento maravilhoso desde 2006, acumulando títulos internacionais, fartando-se de algo que até então faltava no currículo do clube. Mas faltava a segunda Libertadores. Em uma aldeia em que tudo é comparado e comparável entre colorados e gremistas, fazia falta a conquista confirmatória. E ela ocorreu de maneira bem típica.

Se na primeira Libertadores colorada o fantasma era mais psicológico, advindo da seca de títulos, do que do time que em campo jogou futebol consistente durante praticamente toda a competição, em 2010 o título teve “cara de Boca Juniors”. Na sua primeira Libertadores, o Colorado perdeu só uma partida em toda competição, e não se beneficiou do gol qualificado em nenhuma ocasião. Já na segunda, teve de passar das oitavas, quartas e semis sempre com o tal decisivo gol fora de casa, e sempre perdendo as partidas fora dos seus domínios.

Tudo naquela conquista foi sofrido, difícil. Já no primeiro jogo, o Colorado precisou virar no finzinho contra o Emelec em pleno Beira-Rio. Seguiu-se a isso uma campanha justinha e de futebol pobre, com destaque ao épico momento em que Pato Abbondanzieri conseguiu no grito reverter um pênalti ridiculamente marcado contra o Colorado diante do Deportivo Quito, no Equador.

Depois vieram os mata-matas. O Inter pegou nada menos que o Campeão Argentino, o então Campeão da Libertadores e um Tricampeão Mundial, nas oitavas, quartas e semifinais, respectivamente. Contra o Banfield de James Rodríguez, um jogo conturbado na Argentina decretou uma derrota de 3 a 1, com arbitragem horrorosa favorecendo os argentinos. Na volta, com extremas dificuldades, o Inter fez 2 a 0 e passou para as quartas.

Aí, veio o Estudiantes de Verón. No Gigante, 1 a 0 com gol de Sorondo, em cima do laço. A volta foi de tremenda pressão argentina, que abriu 2 a 0 logo no primeiro tempo e parecia ter batido completamente o Inter, que jogava mal em patamar semelhante ao que jogou contra o Tigres no México. Mas no finzinho, quando a fumaça dos fogos não permitia enxergar praticamente nada, em passe mágico de Andrezinho surgiu Giuliano para fazer um gol salvador, copeiro, desses de testar capacidades cardíacas de todos os presentes. Vieram balões e mais balões para a área colorada, zagueiros do time de La Plata como atacantes, e Abbondanzieri se consagrando, defendendo cada bola e jogando-se ao solo como quem salvava um bebê que acabara de cair do oitavo andar de um edifício. No apito final, ainda ocorreu uma tremenda pauleira com os argentinos, que pareciam não aceitar a eliminação imposta dentro de campo.

Passou a Copa de 2010 e vieram os confrontos contra o São Paulo. O Inter havia trocado de treinador, uma vez que o desempenho do time de Jorge Fossati era bem inferior ao que os resultados demonstravam. Veio Celso Roth, sob desconfiança geral e irrestrita. Entretanto, Roth fez uma cirurgia quase inacreditável no time. Mudou o esquema para um 4-2-3-1 que rendeu muito. No Beira-Rio, o Colorado amassou o time paulista, mas venceu só por 1 a 0, gol de Giuliano. A volta no Morumbi foi mais uma epopeia. Teve frango de Renan, expulsão de Tinga (qualquer semelhança com 2006 é mera coincidência. Ou não). O gol sem querer de Alecsandro, com direito a um D’alessandro alucinado comemorando na frente dos são-paulinos, decretou a passagem à final, com uma derrota de 2 a 1.

E a decisão contra o Chivas, hoje, com a distância do tempo, até pode parecer tranquila, principalmente se comparada com as loucuras vividas pelo Inter nas fases anteriores. Mas de tranquila ela não teve nada, nadica. O primeiro jogo, no México, reservava extrema apreensão. Ninguém sabia ao certo como o time colorado se comportaria na grama sintética de Guadalajara. Com a bola rolando, o Inter foi estupendo, mandou no jogo com autoridade impressionante. Porém, saiu perdendo no final da primeira etapa e teve de virar na segunda, com gols de Giuliano- sempre ele- e Bolívar.

“Ah, mas no Beira-Rio foi só alegria, né?”. Nem tanto. A superioridade apresentada no México não se replicou no Gigante, e a partida foi tensa. Mais uma vez, os mexicanos saíram em vantagem, levando todos os colorados ao pavor. Com ares de dramaticidade, surgiu no segundo tempo a estrela de Sóbis, para dividir com o goleiro e empatar. Depois, a arrancada espetacular de Damião, como um puro-sangue correndo em direção ao gol e desferindo uma patada para virar. Aí sim, virou festa. E Giuliano marcou um lindo gol para fechar tudo com chave de ouro. Ainda saiu um golzinho do Chivas no último lance, mas ali ninguém mais tinha dúvida: a América era colorada de novo.

E esse título foi importantíssimo para afirmar ainda mais o Inter no cenário sul-americano. Libertadores, Recopa, Mundial, Copa Sul-Americana, todas essas conquistas foram ótimas. Mas faltava confirmar. Precisávamos de um bom “segundo álbum”, recomeçar o ciclo. E assim aconteceu, para espantar qualquer dúvida que ainda pudesse recair sobre a consistência do momento que o Colorado vivia, da consistência do próprio clube neste cenário. Faltava mostrarmos para todos, mesmo que no íntimo já soubéssemos, que éramos mais que um Once Caldas ou uma LDU, que uma Libertadores até pode ser “acidental”, mas duas, duas não são. Naquele 18 de agosto, o Inter mudava ainda mais de patamar. E passava a ser definitivamente respeitado como um gigante da América do Sul.

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