O pesadelo

Essa noite eu tive um pesadelo. Nele, o Grêmio recém havia sido Tricampeão Brasileiro. Eu estava chateadíssimo, e começava a escrever essa coluna aqui para não só parabenizar os tricolores, mas também para dizer que a muleta dos 15 anos havia acabado, e que o tempo havia deixado o Inter para trás, e que existia urgência urgentíssima de o clube se mexer e se repensar.

Não sei se o Grêmio será Campeão Brasileiro. É difícil afirmar. Mas cedo ou tarde, romperá com sua maldição particular, assim como o Inter o fez em 2006. Tem feito por merecer.

Nos últimos dois anos, o nosso rival tem trabalhado de forma muito mais competente. Se Roger foi um golpe de sorte? Não sei. Sorte ou não, a partir dele o Grêmio encontrou um norte, e passou a segui-lo. Existe lucidez diretiva. Por lá, se sabe onde está, se sabe onde se quer chegar, e parece que se tem ideia do que fazer para chegar onde se quer.

No Inter, vejo o oposto. Filosofia de futebol inexiste. Jogadores são contratados não de forma pensada, para conquistar os títulos desde o início dos campeonatos, mas sim para abafar a insatisfação da torcida quando a vaca já está mugindo a música “Atoladinha” no brejo. Reina o pensamento mágico.

Enquanto no Grêmio a política de futebol dos últimos dois anos é incremental, sempre agregando valor ao que de bom já existe, no Colorado imperam mudanças da água para o vinho a cada instabilidade, algo típico de quem não tem convicção alguma sobre o que está fazendo.

O Inter voltou alguns anos em seu tempo de evolução. Desde a gestão Luigi, e chegando agora à kafkiana política Piffero-Pellegrinista, o clube conseguiu, num processo de auto-sabotagem inacreditável, demolir o crescimento impressionante que o tornou Campeão do Mundo e Bi da América.

Sinto a necessidade de colocar o dedo na ferida, sim, e mesmo de salientar o que está acontecendo bem no nosso nariz.

A muleta dos 15 anos sem grandes títulos do Grêmio é absolutamente válida no campo da corneta, e eu mesmo a utilizo incontáveis vezes. Mas não podemos nos contentar com isso como se fosse o bastante, e tampouco nos acomodar como se essa fosse uma condição eterna do rival. Não é.

O campo da observação prática mostra que hoje o nosso principal adversário está muito mais próximo de uma grande conquista do que nós. E se queremos voltar a um nível de competitividade minimamente compatível com a grandeza do Inter, temos de nos reconectar com a realidade, não só do clube em si, mas do próprio futebol, que tem andado a passos largos para frente enquanto ficamos vendo de longe, com conceitos enferrujados de “perfil vencedor”, “treinador sanguíneo”, “fato novo” e outras baboseiras inacreditáveis. Se um dirigente de futebol não está disposto, minimamente que seja, a estar atualizado sobre o que acontece no futebol, talvez ele esteja na função errada.

A constatação é dura, porém necessária. Não pode haver melhora sem um diagnóstico realista. Hoje, temos um treinador com boas ideias, é verdade, mas que parece uma ilha em meio a um mar de imediatismo tosco e soluções pseudo-simples. Até quando ele sobreviverá nesse ambiente árido? Até que seus dirigentes resolvam criar um “fato novo” ou que é necessário “um técnico disciplinador e com sangue nos olhos”, talvez?

Por ora, o negócio é fugir do risco da degola. Depois, será necessário, mais uma vez, que o Inter se repense como um todo. Manter-se na toada atual de administração do futebol do clube significará assinar o atestado de condenação à coadjuvância do futebol brasileiro para os próximos anos. A pergunta que não cala em minha mente é: onde estão, nos ambientes decisórios do Internacional, os quadros realmente dispostos e capazes de fazer essa depuração? O clube precisa deles.

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